Em apenas 40
minutos, artesão cria desenhos com areia colorida em copo
A areia colorida é retirada de falésias das praias de Majorlândia e
Canoa Quebrada, em Aracati. A técnica dos desenhos com uso desses grãos se
tornou famosa em todo o Brasil
De grão em grão, o cearense Francisco Rodrigues Alves, de 46 anos, faz
desenhos com areia colorida dentro de potes, garrafas e copos de vidro. Há 30
anos, o artesão trabalha com areia
colorida retirada de falésias. O aprendizado foi obtido com uma grande amiga e,
desde então, ele nunca mais deixou a arte de lado. “Sempre gostei de desenhar.
Eu gosto de cor, gosto de criar imagens”, conta.
A técnica exige muita paciência e concentração. O desenho é criado
dentro de um recipiente transparente, deixando a magia da criatividade falar
mais alto. Para preencher um copo de vidro pequeno, o artesão gasta cerca de 40
minutos. Técnica e habilidade transformam areia em magia e sedução no artesanato.
Francisco retira areia natural, de tom pastel, das falésias nas praias
de Majorlândia e Canoa Quebrada, em Aracati. O azul, vermelho ou verde, por
exemplo, são obtidos a partir do tingimento com tintas para tecido. Mas, antes
de tudo, deve-se peneirar a areia, “para ficar fininha”, como explica.
Ao iniciar o trabalho, o artesão coloca várias camadas de areia dentro
do copo e, com a ajuda de um arame de cobre pontiagudo, faz com que o tom
desejado deslize entre os outros. O desenho é feito dentro, e o resultado é
observado por fora, sob os olhos atentos do
artesão, para conferir se tudo está de acordo com o previsto. “Eu vou
infiltrando uma areia na outra e conduzindo para o local desejado”.
Quando tem erro, não adianta tentar apagar. Francisco é tão criativo que
sempre constrói outra ilustração por cima da falha. “Quando eu erro, tenho que
criar outro modelo. Se eu queria fazer uma casa, por exemplo, tenho que
transformar em outra coisa, ou então em uma residência com estilo diferente”,
brinca.
Depois de pronto o desenho, o artesão utiliza o socador (espécie de cabo
pontiagudo) para comprimir o ar, de modo que a areia não fique fofa dentro do copo. Em seguida, ele
coloca o recipiente de cabeça para baixo e verifica que a areia permanece
intacta, ou seja, que não corre risco de cair. Para finalizar, coloca-se cola e
espera secar. Todo a arte, que realmente dá trabalho, custa R$ 25.
O interessante é que os desenhos são exclusivos. É impossível que um
copo com desenho de areia colorida fique idêntico a outro. Segundo o artesão,
não existem cursos para a arte, por isso, a experiência sempre é passada de
geração em geração.
Outras possibilidades
O artesanato com areia colorida é uma técnica manual de fazer paisagens,
ou qualquer outra imagem. Engana-se quem acha que esse tipo de arte é limitado.
Com ele, é possível fazer desde paisagens personalizadas, a logomarcas, escudos
de time e até reprodução de fotografias.
“Uma amiga me pediu para fazer a imagem de um cantor que ela adorava. Eu
fiz em preto e branco, ficou parecendo uma xilogravura”, diz, acrescentando que
para trabalhos dessa forma é preciso 30 a 40 dias de muita dedicação. O valor
varia de R$ 1,5 mil a R$ 2 mil. O artesão também faz chaveiros de minigarrafas,
que custam R$ 2.
Em baixa temporada, Francisco consegue vender cerca de R$ 100 por dia em
copos desenhados. Em alta temporada, o número duplica. “Essa área é bem
valorizada. Dá para viver numa boa e pagar as contas”.
O surgimento da arte
O artesão conta que há duas versões para o surgimento da arte com areias
coloridas. Segundo ele, pessoas comentam que a técnica iniciou em Majorlândia,
quando uma viúva em depressão foi até as falésias, selecionou cores de areia e
fez desenhos abstratos com palha de coqueiro. A outra história diz que filhos
de pescadores, brincando, criaram, sem intenção, a arte. “Eu prefiro acreditar
nas duas histórias. Essa técnica é muito bonita, e só sabe fazer quem tem o
dom”, finaliza.
Para conhecer de perto o trabalho de Francisco Rodrigues, basta ir à
Encetur (Centro de Turismo – Rua Senador Pompeu, 350). A loja é a Artenossa –
nº 3, na Ala Central.
Fonte: Tribuna do Ceará.